Análise: Eldritchvania usa os mitos lovecraftianos para construir um elaborado metroidvania gratuito
No meio dos videogames, jogos gratuitos geralmente acabam indo por duas vertentes: ou têm estruturas voltadas à monetização de conteúdo ou são obras rudimentares feitas por entusiastas de poucos recursos em uma busca por experimentação e ganho de experiência na área.Ainda que possa ser comparado à segunda categoria, Eldritchvania não se encaixa em nenhuma das duas. Na superfície, a produção é humilde, mas logo podemos ver como cada detalhe foi feito com esmero e refinamento.Há vários metroidvanias gratuitos (confira uma lista com 30 deles) e a maioria fica no campo dos “minivanias”, isto é, exemplares de campanhas bem curtas. Lançado em 2024, Eldritchvania é uma exceção nesse meio devido à duração do seu conteúdo, passando das dez horas, bem como pelo polimento dele.“Nessas viagens sempre existem perigos incalculáveis” (A busca onírica por Kadath)O primeiro ponto que se revela bem-feito é o visual. Ainda há algo de rústico na execução, mas os cenários pintados e seus personagens em proporções cartunescas são competentes e agradáveis, chegando a me fazer perceber semelhanças artísticas a Braid. Isso é especialmente verdadeiro quando consideramos a inspiração lovecraftiana, levando a cenários antigos e místicos, marcados por glifos insondáveis e estátuas tão monstruosas quanto certos inimigos que surgem pelo caminho.Os mitos de H. P. Lovecraft, patrono do horror cósmico no início do século XX, estão diretamente representados em Eldritchvania, tanto em textos (em inglês) como em imagens bem-colocadas. Como leitor das obras do autor, gostei de ver como elas foram traduzida para um metroidvania com bastante naturalidade.Certas falas de personagens soam prosaicas demais para o estilo rebuscado de Lovecraft, como se houvesse uma intenção de contrabalancear o peso dramático de suas inspirações e, ao mesmo tempo, transmitir algo que combinasse com o visual cartunesco de que falei antes.Não chega a ser cômico nem a atrapalhar a atmosfera enigmática, uma vez que a maior parte da campanha consegue ser opressiva em boa medida: o bastante para fazer penar e temer a morte, mas também para valorizar cada nova descoberta que contribui para o progresso rumo às profundezas do mistério.Eldritchvania impõe desafios, mas não deixa seu protagonista indefeso. Dougald empunha uma espada ancestral da família, sempre com ataques básicos, e ainda pode encontrar duas armas pelo caminho, com alcances e danos diferentes. Além disso, como bom ocultista que é, ele é capaz de aprender alguns feitiços. São poucos, mas fazem a diferença em certas batalhas.Os chefes são difíceis e requerem aprender seus movimentos para evitar os ataques e reconhecer as melhores brechas para puni-los. Não há medidor de vida à mostra, mas as lutas são perceptivelmente divididas em fases com padrões progressivos de agressividade. Essas criaturas são verdadeiras esponjas de dano, o que torna as batalhas mais longas do que eu gostaria e bem desafiadoras de se manter vivo por tanto tempo. Com a espada normal, precisei de uma média de 50 acertos para derrotar cada chefe, fazendo-me contar cada corte para saber como estava indo no confronto.“Os deuses dos infernos siderais que guardam os fracos deuses da Terra” (Os Outros Deuses)Nosso herói, o escocês Dougal, viaja a uma ilha sinistra à procura de seu filho Fergus, desaparecido durante uma exploração às profundezas macabras de uma igreja. O santuário foi construído acima de catacumbas antigas, que, por sua vez, encobrem a entrada para cidades primordiais subterrâneas, construídas para a honra de entidades abomináveis vindas dos abismos estelares. Essas abjeções cósmicas são os Veneraxxi, criados em Eldritchvania como uma adição aos mitos do panteão lovecraftiano.Essa raça prepotente criou duas espécies para adorarem-na e construir sua cidade esquecida. São esses que veremos ao longo da campanha, assim como os tradicionais cultistas encapuzados, humanos que buscam beber do favor e do conhecimento insano das forças superiores.Os textos fazem um bom trabalho em articular a construção do mundo. Mesmo que você não tenha familiaridade com as fontes literárias, não se preocupe: a ideia do horror cósmico é a de pessoas descobrindo meros vislumbres de uma terrível realidade sobrenatural muito acima da compreensão humana. Para que o medo do desconhecido entre em ação, é preciso manter as lacunas obscurecidas nas sombras abissais, revelando apenas o bastante para instigar a curiosidade de míseros humanos sedentos por uma sabedoria doentia que não lhes pertence.Em Eldritchvania, esses ocultistas incautos são Dougald e Fergus, pai e filho, envoltos em um mistério que não esperavam. Nós, que controlamos o pai, também podemos nos encaixar nessa descrição: nos arriscamos nas ruínas inefáveis em busca de conhecimento para solucionar os puzzles e enigmas que bloqueiam o caminho.“A coisa mais misericordiosa do mundo é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo” (O chamado de Cthulhu)A inspiração para a estrutura

No meio dos videogames, jogos gratuitos geralmente acabam indo por duas vertentes: ou têm estruturas voltadas à monetização de conteúdo ou são obras rudimentares feitas por entusiastas de poucos recursos em uma busca por experimentação e ganho de experiência na área.
“Nessas viagens sempre existem perigos incalculáveis” (A busca onírica por Kadath)
“Os deuses dos infernos siderais que guardam os fracos deuses da Terra” (Os Outros Deuses)
“A coisa mais misericordiosa do mundo é a incapacidade da mente humana em correlacionar todo o seu conteúdo” (O chamado de Cthulhu)
“Nossa única salvaguarda contra os assaltos do caos e dos demônios dos espaços insondáveis” (O horror sobrenatural em literatura)
“Quem sabe qual será o final? A repugnância suprema aguarda sonhando nas profundezas” (O chamado de Cthulhu)
Prós
- Ótima adaptação dos mitos lovecraftianos, com adições próprias;
- Puzzles que se espalham pelo mundo de jogo e exigem que prestemos atenção aos ambientes;
- Bom registro de informações obtidas para ajudar no processo de desvendar os enigmas;
- Visual pintado detalhado e atmosférico;
- Jogo gratuito.
Contras
- Movimentação lenta e limitada;
- Faltam meios para agilizar o backtracking, cujos retornos se tornam repetitivos;
- A dificuldade elevada tanto nos combates contra chefes quanto nos puzzles pode ser um empecilho ao proveito de parte do público;
- Sem português brasileiro.
Eldritchvania — PC — Nota: 8.5