Microsoft 50 Anos – a empresa que mudou o mundo – Parte 2
Nesta segunda parte da jornada da Microsoft, vamos conhecer a origem do MS-DOS, e como a IBM ajudou a criar a maior empresa de software do planeta Microsoft 50 Anos – a empresa que mudou o mundo – Parte 2

A Microsoft fincou o pé no mercado com o BASIC do Altair, que teve seu código-fonte original disponibilizado por Bill Gates (Cuidado, PDF!). Depois começaram a produzir outras linguagens, como FORTRAN e COBOL, além de jogos, como o port do clássico Adventure, e até seu primeiro sistema operacional, o Xenix.
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Equipe da Microsoft, começo dos Anos 80 (Crédito: Microsoft)
Enquanto isso, a Microinformática crescia, microcomputadores “sérios” eram vendidos para empresas, em 1974 a Digital Research lançou o CP/M (Control Program / Monitor), um sistema operacional para computadores pequenos e relativamente baratos.
Em teoria, um programa escrito para rodar em CP/M, com processadores Intel 8080 ou Zilog Z80, rodaria em qualquer computador com as mesmas características, sem necessidade de recompilação ou com um trabalho de adaptação mínimo. Isso tornou bem mais fácil a vida dos programadores.
Isso causou uma proliferação de computadores que começaram a beliscar o mercado de supermicros da IBM, que custavam até US$ 120 mil, em valores de 2025.
Com sua visão monolítica, a IBM como um todo desconsiderava computadores como o VIC-20 e o Apple II, eram só brinquedos, mas parte da empresa tinha outra percepção, e começaram um movimento interno para desenvolver um microcomputador.

Apple ensina o que é e como conseguir um computador pessoal. (Crédito: Apple)
O trabalho ficou a cargo do grupo de Boca Raton, que eram meio “malditos”, com idéias esquisitas como criar um computador de arquitetura aberta, que qualquer um poderia desenvolver periféricos.
Quando surgiu o boato de que a IBM estaria trabalhando em um PC, ninguém acreditou. Um jornalista disse que “A IBM criar um computador pessoal é o mesmo que um elefante aprender a sapatear”.
Um PC era completamente contra a filosofia da empresa, que exigis controle total da cadeia de produção, incluindo software, suas vendas eram quase sempre no formato de leasing e não trabalhavam com consumidor final, e aqui pauso para uma anedota pessoal:
Eu odeio a IBM.
Muitos anos atrás, durante uma FENASOFT, foi o lançamento do Windows 95. A IBM por sua vez, propagandeava o OS/2 Warp, seu excelente sistema operacional 32 bits, de verdade, estável, seguro, de respeito.
Na Feira, um estande imenso da IBM todo decorado com material do OS/2 Warp. Local lindo, cheio de booth babes edificantes, e os obrigatórios nerds para as conversas sérias. E era uma feira de varejo, atente para o detalhe.
Fui todo serelepe pedir para adquirir uma cópia.
“Um momento”, disse a moça dadivosa.
A moça vai até um japa, ele faz uma expressão confusa. Anda até outro sujeito, vão pra uma salinha, levam quase dez minutos para voltar.
“Aqui, este é o número da revenda” – diz o japa me entregando um cartão
“Como assim, revenda?”
“A gente não tem cópia à venda aqui, estamos só demonstrando. Você entra em contato, a revenda faz todos os procedimentos, e te enviam o software...”
“Sério? Vocês gastaram uma fortuna em um estande maravilhoso em uma feira de varejo e não têm uma cópia pra vender? Até as lanchonetes estão vendendo Windows 95...”
A IBM simplesmente não trabalhava com varejo, nem para seus produtos destinados ao consumidor final.
Em outra ocasião, eu trabalhava em um provedor, rodávamos OS/2 e queríamos automatizar algumas funções. A linguagem ideal era Rexx, da IBM. Depois de HORAS no telefone conseguimos achar uma revenda que tinha o produto em catálogo. Custou caro, e nunca chegou. Quando já tínhamos esquecido, chega um envelope, da IRLANDA, com um CD-R safado com uma etiqueta impressa em jato de tinta. A cadeia de revenda da IBM deu a volta ao mundo pra um infeliz queimar um CD.
//fim da rant
A equipe de Boca Raton percebeu que a única forma de lançar o PC em tempo hábil era terceirizando o software. Reza a lenda que Mary Gates, mãe de Bill era chapa de John Open, Presidente da IBM, pois ambos eram do board da United Way, uma grande organização filantrópica americana, e Mary teria dito a John que seu filho tinha uma empresa de software.
O mais provável é que a Microsoft tenha sido reconhecida e chamada para uma reunião, e bem mais tarde Open tenha reconhecido o nome, e dado uma força por ter o aval de Mary. CEOs não costumam escolher fornecedores de projetos menores.
De qualquer forma, Bill Gates recusou a proposta. Ele queria focar em linguagem, e topou criar o BASIC para o IBM-PC, já o sistema operacional ele sugeriu o óbvio: CP/M.

CP/M era tão popular que computadores incompatíveis tinham placas com uma CPU só para rodar programas CP/M. (Crédito: Wikimedia Commons)
A IBM foi atrás da Digital Research, mas depois de várias reuniões não chegaram a um acordo. Foi uma questão de dinheiro e cultura interna, a Digital queria um valor muito alto por cópia vendida, e a IBM queria controle demais.
Com o relógio andando, voltaram para a Microsoft, e nessa época já com Steve Ballmer na equipe, viram que era uma oportunidade boa demais, e a Microsoft se comprometeu a produzir um sistema operacional kibado inspirado no CP/M, em tempo hábil para o lançamento do IBM-PC.
Problema: Eles não tinham um sistema operacional baseado em arquitetura 8086/88. Eles não tinham basicamente nada, exceto a leve noção de que uma pequena empresa em Tukwila, Washington chamada Seattle Computer Products vendia computadores com um sistema operacional próprio, internamente chamado QDOS, de Quick And Dirty Operational System, tradução livre, Sistema Operacional Feito nas Coxas. Deu pra imaginar a urticária atacando os executivos da IBM...

Um screenshot do QDOS (Crédito: Reprodução Internet)
Depois de algumas negociações, a Microsoft conseguiu os direitos para modificar e revender o QDOS, agora chamado 86-DOS. A licença saiu por US$100 mil em valores atuais. Mais adiante compraram todos os direitos, por US$200 mil.
Modificado para rodar nos PCs da IBM, o agora chamado PC-DOS estava pronto para ser negociado, e aí foi o pulo do gato, que surpreendeu todo mundo e é ensinado em todas as grandes faculdades de negócios:
O normal da IBM seria adquirir a propriedade intelectual sobre o DOS, mas isso custaria dinheiro. Gates fez uma contraproposta: Ele licenciaria o DOS, por um precinho bem camarada, com a condição de manter a PI sobre o software, e poder vender sua própria versão, MS-DOS, sem controle da IBM.

Sim, nessa época ao menos gringo pagava por Sistema Operacional (Crédito: Wikimedia Commons)
Os tomadores de decisão, todos coroas filhotes de mainframes, que insistiam em ver microcomputadores como brinquedos irritantes, acharam excelente, e sentaram o jamegão no contrato, sem perceber que estavam criando uma empresa bilionária e um mercado mundial de computadores, que abocanhariam momentaneamente 80%, mas que logo perderiam o controle.
Depois de vender sua divisão de hardware para a Lenovo, a IBM abandonou o mercado de PCs em 2007. Em 2025 a IBM tem um valor de mercado de US$230 bilhões. A Microsoft vale US$3 trilhões.
Com a porteira aberta, era a hora das janelas
No próximo episódio vamos relembrar o surgimento do Windows, aprender que não, a Microsoft não “roubou” a interface gráfica do LISA, como Bill Gates pagou US$350 mil em um computador e uma impressora, e como Michael Dell declarou que a Apple estava falida, deveria fechar a empresa, vender os móveis e distribuir o dinheiro entre os acionistas.
Hoje a Dell vale US$113 bilhões. A Apple, US$3,53 trilhões.