Acelerando a web, um site de cada vez
Apesar de termos computadores e celulares muito mais rápidos que os equivalentes de décadas atrás, essa diferença não se sente na maioria dos usos. Pior: em alguns casos, a sensação é de que estamos regredindo, com aplicativos que ficam lentos em vez de mais ágeis. Os poderes extras que as novas gerações de processadores, memórias […]

Apesar de termos computadores e celulares muito mais rápidos que os equivalentes de décadas atrás, essa diferença não se sente na maioria dos usos. Pior: em alguns casos, a sensação é de que estamos regredindo, com aplicativos que ficam lentos em vez de mais ágeis.
Os poderes extras que as novas gerações de processadores, memórias e outros componentes trazem são preenchidos por… mais coisas. Não existe poder computacional ocioso. No pior cenário (e, aparentemente, o mais comum), a ociosidade é ocupada por recursos invisíveis ao usuário final e/ou contrários aos seus interesses (pense em vigilância e publicidade invasiva).
O site deste Manual é quase uma expressão de inconformismo com tal situação. Minha já famosa obsessão com o leiaute é, em grande parte, uma batalha infinita contra o inchaço do software (“bloating”). Não há justificativa plausível para que esta página, por exemplo, seja mais “pesada” que um romance russo. Podemos ser melhores.
Em 2024, pensei em dar um fim mais produtivo à minha obsessão por sites rápidos. Convidei a Clarissa e, com o aceite dela, abrimos uma empresa, a Célere, para espalhar a palavra da otimização e ajudar outros veículos de imprensa a oferecerem experiências menos sofríveis a seus leitores.
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Nosso foco é o WordPress, por dois motivos:
- Ambos, eu e Clarissa, temos longa experiência com a plataforma.
- O WordPress é o CMS (sistema de gerenciamento de conteúdo) mais popular entre publicações jornalísticas digitais. Uma pesquisa da Ajor (julho–agosto de 2023), com 91 associadas, apontou que 80,2% delas usa o WordPress.
Gratuito e com o código aberto, com mais de duas décadas de estrada e toneladas de plugins, temas e gambiarras disponíveis, não é difícil compreender a popularidade do WordPress. O que não significa, por outro lado, que seja um sistema pronto para uso.
Diria que é o contrário: o WordPress, em especial após a introdução do sistema de blocos (Gutenberg) em 2019, o novo editor de posts visual, é pouco otimizado e suscetível a problemas. Apesar disso, oferece uma boa base para construir sites rápidos, fáceis de usar e poderosos — fatores que, de qualquer forma, sempre são difíceis de conciliar.
Para usar uma metáfora quase literal, a Célere é como se fosse aquela empresa de limpeza pesada, contratada quando um imóvel fica anos sem alguém que tire os móveis do lugar, suba na escada para tirar o pó da superfície dos armários, desbrave o “quartinho da bagunça”, faça uma boa dedetização.
Para além disso, da remoção da sujeira mais pesada e oculta, a gente avalia o “fluxo de limpeza” rotineiro. Voltando ao software, quero dizer que revisamos os plugins instalados, os componentes carregados (scripts, folhas de estilo etc.) por cada página, as práticas da equipe editorial, o sistema de caching, as políticas de segurança.
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Você já viu um daqueles vídeos ~satisfatórios, em que uma equipe vai à casa de alguém que desistiu de viver e deixa o lugar brilhando? É mais ou menos o que sentimos quando terminamos a otimização de um site, quando resolvemos uma lentidão anormal que afeta tanto leitores quanto jornalistas.
Oferecemos intervenções pontuais e contínuas, porque como todo software no ano da graça de 2025, o de um site dinâmico — como é o caso dos de jornais — nunca está pronto.
Mitigamos regressões das atualizações do WordPress e plugins, aproveitamos novos recursos que sejam benéficos aos interesses da publicação, combatemos novas ameaças (estou olhando para vocês, robôs saqueadores de empresas de IA) e, quando convém, tiramos os olhos do micro e buscamos alternativas em outras paragens. Sites estáticos, talvez, quiçá um “fork” (derivado) do WordPress focado em desempenho, como o ClassicPress1
Não é a coisa mais “sexy” do mundo, essa de otimizar. Em geral, os olhos dos gerentes de produtos e de gente do marketing brilham para novas funcionalidades, coisas diferentes que possam ser alardeadas. O mote da Célere é um pouco ingrato de vender: trabalhamos duro para melhorar as coisas do jeito como elas estão. Se formos bem sucedidos, no máximo alguém mais atento notará que o site está melhor, sem conseguir apontar o porquê.
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É a primeira vez que toco uma empresa formal. Acho que a Clarissa também. A familiaridade que temos com a otimização de sites é ausente no lado burocrático/administrativo da coisa. Estamos navegando em águas desconhecidas, o que tem sido um desafio e tanto, ainda que manejável.
No lado da “atividade-fim”, já temos um cliente muito querido e o próprio Manual, que desde antes da ideia da Célere surgir já funcionava como uma espécie de “cobaia”, objeto da minha inquietação e de testes sem fim.
Com a Célere, o nosso objetivo é dar vazão aos aprendizados que extraímos daqui a fim de tornar a web um lugar mais agradável, um site de cada vez. Você tem um de notícias/editorial? Vamos conversar!
- Está nos meus planos para 2026 migrar o Manual para o ClassicPress. ↩